
INTRODUÇÃO
O conceito de tempo Bantu-Kongo, profundamente enraizado nas práticas culturais, espirituais e cosmológicas do povo Kongo da África Central Ocidental, apresenta uma estrutura complexa e cíclica que contrasta fortemente com a perspectiva linear comumente encontrada no pensamento ocidental. Este conceito não é apenas uma forma de medir a progressão cronológica, mas está intrinsecamente ligado a fenômenos naturais, crenças espirituais e rituais comunitários, oferecendo uma visão holística da vida e da existência.
O blog a seguir é baseado no texto “Ntangu-Tandu-Kolo: O Conceito de Tempo Bantu-Kongo” de K. K. Bunseki Fu-Kiau.
CONTEXTO CULTURAL E HISTÓRICO
O povo Kongo faz parte do grupo maior Bantu que migrou da região Benue-Cross River, na atual Nigéria, para as florestas equatoriais da África Central Ocidental por volta do segundo milênio a.C. Essa migração levou à formação do estado Kongo, que no século XIII já havia se desenvolvido em uma sociedade complexa com estruturas políticas intrincadas e práticas tecnológicas e culturais avançadas.
O contato entre Kongo e Europeus
O advento dos exploradores europeus no final do século XV marcou o início de uma turbulência significativa para o estado do Kongo, entrelaçada com as brutais realidades do comércio transatlântico de escravos e, posteriormente, da exploração colonial. Apesar dessas dificuldades, o povo Kongo manteve uma forte identidade cultural, evidenciada pelo uso persistente da língua Kikongo e pelas tradições espirituais compartilhadas.
Os Bantu-Kongo: O Tempo Não é uma Linha, é um Rio com Marcos
Esqueça relógios e calendários, para o povo Bantu-Kongo da África Central, o tempo é uma história completamente diferente. Aqui, é um rio cíclico que flui para sempre, sem começo nem fim.
Pense assim: eventos, grandes ou pequenos, naturais ou feitos pelo homem, são como pedras no rio. Essas “dunga” criam marcos, ajudando-nos a entender o fluxo do tempo. Chamamos elas de “n’ka-ma mia ntangu” em Kikongo, que se traduz como “barragens do tempo.”
Então, o tempo é tanto um conceito abstrato (o rio que flui continuamente) quanto concreto (marcado pelas dunga).
Agora, para realmente mergulhar nesse conceito, precisamos entender algumas palavras-chave em Kikongo:
- Ntangu:Esta é a palavra mais comum para tempo. Vem da raiz “tanga,” que significa contar, ordenar ou dançar (pense em mover os pés no ritmo, mantendo o tempo!). Essa conexão entre tempo e movimento é bem interessante, não é?
- Tandu:Esta palavra para tempo vem de “tanda,” que significa marcar ou alinhar algo. Como colocar pedras (dunga) ao longo da margem do rio.
- Kolo:Esta palavra está relacionada ao estado e à força. Expressa a ideia de um ponto específico no tempo onde as coisas estão de uma certa maneira.
Existem até palavras para “hora” – lo, lokula e ndo. Mas essa é uma história para outro dia!
O conceito Bantu-Kongo de tempo oferece uma perspectiva nova. É um lembrete de que o tempo não é apenas uma medida rígida, mas uma experiência dinâmica moldada pelos eventos que o preenchem.
O CONCEITO ESOTÉRICO DO TEMPO NO KONGO
O sistema cosmológico
O conceito Kongo de tempo, particularmente seus aspectos esotéricos conhecidos apenas pelos iniciados (bangdnga), incorpora um sistema cosmológico detalhado com terminologias específicas que descrevem vários estados temporais e existenciais:
- Mpemba: Fases frias e quentes do tempo, incorporando equilíbrio dinâmico e transformação dentro do cosmograma, onde vida e morte estão entrelaçadas.
- Kalunga: O limite liminar entre vida e morte, encapsulando a natureza cíclica da existência e o fluxo contínuo das energias vitais.
- Kala: O amanhecer de novos começos, semelhante à primavera, simbolizando surgimento e crescimento.
- Tukula: A fase de pico, como o meio-dia ou verão, representando vitalidade e maturidade.
- Luvemba: O final da tarde ou período de outono, um tempo para reflexão e preparação para o fim de um ciclo.
- Musoni: O crepúsculo ou estágio de inverno, marcando a conclusão e o período de gestação antes do renascimento em Kala.
- Nseke: O mundo superior, o reino dos vivos, em contraste com o mundo inferior (Mpemba), onde residem os ancestrais. Este elemento dualista destaca a conexão entre os reinos físico e espiritual e sua influência nas percepções temporais.
Os Quatro Rios do Tempo: Uma Perspectiva Bantu-Kongo
O povo Bantu-Kongo não vê apenas um rio do tempo, eles veem toda uma rede! Eles reconhecem quatro reinos distintos do tempo que fluem juntos, moldando nosso mundo.
Tempo Cósmico (Tandu Kiayalangana)
O primeiro étempo cósmico (tandu kiayalangana). Imagine-o como o rio ancestral, a fonte de toda a criação. Esta é a energia sempre fluente de Kalunga, a força suprema, constantemente formando novas coisas (dunga) por todo o universo. Pense no poder de Kalunga como a corrente que empurra o rio para frente, criando novas “barragens” (momentos de criação) ao longo do caminho.
Essas “barragens” são cruciais. Depois que os humanos apareceram na Terra, o plano de Kalunga não estava terminado. Este rio cósmico se estende além do nosso planeta, e sua energia continuará a criar novos mundos no vasto vazio além do céu.
Aqui está a parte interessante: cada novo mundo, assim como o nosso, também terá seu próprio tempo cósmico, com seu fluxo único. Mas os Bantu-Kongo acreditam que há um padrão. Cada mundo passa por quatro estágios-chave, como pedras para atravessar o rio. Esses estágios são chamados de “barragens do tempo” (n’kama mia ntangu).
O tempo cósmico na crença Kongo é um processo contínuo impulsionado pela força divina de Kalunga, influenciando a criação e transformação do universo. Ele é estruturado em quatro estágios cardeais, cada um correspondendo a eventos cosmológicos significativos que refletem o ciclo de vida do universo:
- Tempo Musoni: Iniciação da criação, preenchendo o vazio.
- Tempo Kala: Surgimento das formas de vida.
- Tempo Tukula: Desenvolvimento e maturação da vida.
- Tempo Luvemba: Conclusão e renovação do ciclo cósmico.
A Primeira Represa do Tempo: Musoni (Tandu kia musoni) – Onde Tudo Começa
Na cosmovisão Bantu-Kongo, o tempo não é apenas um rio, é um rio com marcos específicos. O primeiro desses marcos é chamadoTempo Musoni (Tandu kia musoni). Prepare-se, porque este é o começo de tudo!
Pense antes de qualquer coisa existir, apenas o vazio puro. O tempo Musoni é quando Kalunga, a força suprema, começa a preparar as coisas (literalmente traduzido como “o período do cozimento de Kalunga”). Este é o momento do “big bang”, uma colisão gigante que preenche o vazio com matéria quente e turbulenta. Imagine o universo como uma panela gigante de sopa borbulhando com energia – esse é o tempo Musoni.
Esse calor intenso e movimento são como a primeira faísca da vida e do próprio tempo. É a base para tudo que virá depois, e é simbolizado pela cor amarela no cosmograma Kongo.
O tempo Musoni é tão importante que não é apenas a primeira etapa do universo, é o primeiro passo em tudo que os Bantu-Kongo fazem. Plantar uma semente? Isso é como colocá-la de volta no solo fértil de Musoni. Ter uma ideia? Essa faísca de criatividade também começa em Musoni.
Este é o tempo do potencial máximo, como a escuridão profunda da meia-noite (n’dingu-a-nsi). É onde as energias masculina e feminina se unem para formar os blocos básicos de tudo – “ma” ou matéria.
A Segunda Represa do Tempo: Kala (Tandu kia Kala) – O Surgimento da Vida
O tempo Musoni preparou o terreno, e agora vemTempo Kala (Tandu kia Kala). Esta é a segunda etapa onde nosso planeta Terra realmente começa a se transformar.
Imagine a Terra após o big bang – tudo está esfriando. Agora, durante o tempo Kala, as grandes mudanças acontecem. Formas de vida minúsculas, como criaturas microscópicas e algas, começam a aparecer. A Terra está coberta de água, e é um tempo escuro e misterioso, simbolizado pela cor preta.
Mas há um ponto de virada. Aqui está uma ideia bonita: o tempo Kala é também quando o sol nasce do mundo espiritual (o mundo dos ancestrais) para o mundo físico. É como a luz e a esperança surgindo pela primeira vez, trazendo energia criativa para o planeta.
Esse conceito do tempo Kala não é apenas sobre o planeta, ele reflete também a sociedade Bantu-Kongo. Kala é visto como o estágio onde todos os seres vivos entram em existência – é o tempo do nascimento. Assim como o nascer do sol traz luz ao mundo, o nascimento de uma criança é visto como um novo “sol vivo” surgindo no mundo físico, trazendo alegria para a comunidade.
A Terceira Represa do Tempo: Tukula (Tandu kia Tukula) – Crescimento e Prosperidade
O Musoni lançou a fundação, Kala trouxe a vida, e agora vemo Tempo Tukula (Tandu kia Tukula). É aqui que as coisas realmente florescem na Terra.
Imagine um planeta jovem repleto de vida após as formas básicas terem surgido em Kala. Durante o tempo Tukula, tudo amadurece e prospera. As plantas crescem maiores e mais fortes, e os animais aparecem na cena. É um tempo de crescimento e abundância, simbolizado pela cor vermelha.
A palavra “Tukula” em si significa “vamos crescer/amadurecer”, capturando perfeitamente a essência dessa fase. Há um conceito interessante aqui: a zona “V”. Esta é vista como o ponto mais crítico para o sucesso, especialmente para os humanos. Representa o auge do nosso poder criativo.
Pense em sociedades ou líderes que não aproveitam essa zona criativa. Os Bantu-Kongo acreditam que tais sociedades estão destinadas a problemas. A chave é aprender com a zona “V”, ficar firme e enfrentar os desafios de frente. Assim como uma planta que se estende em direção ao sol, precisamos aproveitar essa energia criativa para prosperar.
Esse tempo Tukula é um lembrete de que crescimento não é apenas ficar maior, é usar nosso potencial ao máximo.
A Quarta Represa do Tempo: Luvumba (Tandu kia Luvemba) – Alcançando a Plenitude
A etapa final no grande rio do tempo dos Bantu-Kongo éo Tempo Luvemba (Tandu kia Luvemba). É aqui que as coisas ficam realmente interessantes.
Imagine a Terra após todo o crescimento do tempo Tukula. Agora, segundo a mitologia Bantu-Kongo, aparece um ser especial chamado Maghingu. Esse ser é único – é ao mesmo tempo masculino e feminino, um “um-em-si” completo. Pense nele como um único ser que detém tanto a energia masculina quanto a feminina.
Por meio de uma série de rituais, Maghingu se divide em dois seres separados: Lumbu (feminino) e Muzita (masculino). Esse ato cria um planeta inteiro e equilibrado. Lumbu e Muzita, para manter sua unidade original, escolhem então viver juntos como marido e mulher.
Com essa união, o círculo do tempo cósmico se fecha (como visto no cosmograma Kongo), e um novo capítulo começa – o tempo vital, que foca no ciclo de vida dos seres individuais.
Essa etapa Luvumba é importante porque explica por que alguns planetas podem ser estéreis. A ideia é que planetas, como nossa lua ou Marte, simplesmente não completaram todas as quatro etapas. Eles estão presos em uma fase anterior, de “resfriamento”, ou podem ter sido perturbados por algum evento cósmico.
Mas aqui está a parte interessante: Kalunga, a força suprema, está sempre criando. Mesmo que um planeta não passe por todas as quatro etapas, a energia de Kalunga continua fluindo, como um fogo gigante que incendeia o universo e forma novos mundos o tempo todo.
O conceito Bantu-Kongo de tempo oferece uma maneira totalmente nova de pensar sobre nosso lugar no universo.
Além dos Quatro Rios: Tempo Vital (Ntangu a zingu/moyo) – O Ciclo da Vida
O conceito Bantu-Kongo de tempo é como uma grande história com muitos capítulos. Exploramos as quatro etapas do tempo cósmico, o grande rio que molda nosso planeta. Mas há outra parte crucial: o Tempo Vital (Ntangu a zingu/moyo).
Pense no tempo vital como o ciclo da própria vida, um ciclo que começa e termina no mesmo ponto, transformando-se constantemente. A duração desse ciclo depende do ser ou sistema específico envolvido. Tudo, desde plantas e animais até ideias e sistemas sociais, segue esse padrão.
Aqui está como ele se divide:
- Musoni (Concepção): Este é o ponto de partida, como a faísca de uma ideia ou o momento da concepção no útero. É chamado de “kenko dia ngyakulu” em Kikongo.
- Kala (Nascimento): Assim como um bebê nascendo, essa etapa representa o surgimento de algo novo no mundo.
- Tukula (Maturidade): Esta é a fase de crescimento e florescimento, onde as coisas atingem seu pleno potencial.
- Luvemba (Transformação/Morte): Tudo eventualmente chega a um ponto de mudança. No tempo vital, essa “morte” não é um fim, mas uma transformação. É como uma represa no rio, permitindo que a energia flua e se regenere.
Os Bantu-Kongo acreditam que a morte não é algo a temer. Eles dizem “tufwanga mu soba” – morremos para passar por uma mudança. A morte é simplesmente a liberação da energia viva de volta ao universo, pronta para alimentar um novo começo.
Esse conceito de tempo vital é fascinante. Ele nos lembra que tudo no universo está interconectado, fluindo e se transformando constantemente. Até a morte se torna parte do belo ciclo da vida.
O tempo vital espelha as fases da vida dos seres, destacando a interconexão entre nascimento, vida, morte e renascimento. Cada fase da vida de um ser corresponde às etapas cósmicas, enfatizando uma existência harmoniosa que cicla através da criação, crescimento e transformação.
O Ritmo Humano: Tempo Social (Ntangu amoukanana)
O conceito bantu-kongo de tempo não se refere apenas às forças cósmicas e ciclos naturais. Ele também abrange o tempo social (ntangu amoukanana), o tempo dedicado às atividades humanas.
Aqui, o foco é especificamente no povo bantu, particularmente os bakongo. O tempo social refere-se aos momentos em que um “Muntu” (ser humano) está envolvido em alguma atividade que molda sua comunidade.
Isso pode ser desde interações puramente sociais, como conversar ou celebrar um casamento, até atividades mais práticas como trabalhar, negociar ou resolver conflitos. A educação, como a iniciação de novos líderes, e discussões filosóficas, como o compartilhamento de provérbios, também fazem parte desse conceito de tempo social.
Até mesmo explorar a história ouvindo o “masamuna” (o griot, contador de histórias que preserva a tradição oral) é considerado parte do tempo social.
Esse conceito é importante porque destaca como nossas ações, grandes ou pequenas, contribuem para o ritmo de nossas comunidades. Cada conversa, cada celebração, cada ato de ensinar ou aprender torna-se um alicerce do tempo social.
O conceito bantu-kongo de tempo nos lembra que não somos indivíduos isolados. Somos todos parte de uma teia maior, e a forma como gastamos nosso tempo molda o mundo ao nosso redor.
O Ritmo da Natureza: Tempo Natural (Ntangu yasemuka)
O conceito bantu-kongo de tempo não se limita apenas aos grandes ciclos cósmicos e à duração da vida individual. Eles também reconhecem um tempo natural (ntangu yasemuka) que governa a própria Terra.
Pense nisso como o relógio interno da natureza, controlando tudo, desde o florescimento das plantas até o movimento dos animais. Esse tempo natural dita as estações, trazendo tanto renovação quanto rejuvenescimento.
Aqui está uma descrição das quatro estações naturais:
- Nsungi a mvula (Estação das Chuvas): Este é um tempo de limpeza e crescimento. Imagine a Terra estendendo os braços abertos para receber a chuva que dá vida do céu. Em regiões mais frias, isso corresponde ao inverno.
- Nsungi a sivu (Estação Fria): A natureza respira fundo durante esse período. As temperaturas caem, e a energia da Terra volta-se para dentro para nutrir a vida vegetal.
- Nsungi a lakumuka (Estação do Outono): Assim como as folhas caem das árvores, esta estação é sobre deixar ir. A natureza renova os nutrientes do solo e se prepara para um novo ciclo.
- Nsungi a mbangala (Estação do Verão): Este é um tempo vibrante de atividade. As plantas recuperam seu verde exuberante, mas também é um período em que o crescimento antigo dá lugar ao novo.
Assim como as outras formas de tempo, o tempo natural conecta-se ao cosmograma Kongo. Cada estação alinha-se a uma etapa específica desse grande ciclo, destacando a interconexão de tudo no universo.
O conceito bantu-kongo de tempo oferece uma maneira bela de apreciar o mundo natural ao nosso redor. Ele nos lembra que a mudança é constante, e até mesmo as estações fazem parte de uma grande dança de vida, morte e renascimento.
O Ritmo da Vida: Tempo Social em Ação
O conceito bantu-kongo de tempo social não é apenas uma ideia abstrata. Ele tem implicações reais que moldam suas comunidades.
Lembra das quatro etapas do cosmograma Kongo (musoni, kala, tukula e luvemba)? Pois bem, o tempo social também se alinha perfeitamente a essas etapas.
Tradicionalmente, a semana Kongo tinha apenas quatro dias, correspondendo aos quatro principais mercados. Da mesma forma, o dia era dividido em quatro períodos principais:
- N’dingu-a-nsi (Meia-noite): Isso se alinha com Musoni, a etapa inicial.
- Nseluka (Amanhecer): Isso reflete Kala, a etapa do nascimento e dos novos começos.
- Mbata (Meio-dia): Correspondente a Tukula, o tempo de crescimento e florescimento.
- Ndimina (Pôr do sol): Isso corresponde a Luvemba, a etapa da transformação.
Também existiam horas “entre” esses períodos, cada uma com seu próprio significado.
Essa conexão entre o tempo social e o cosmograma vai ainda mais longe. Uma aldeia típica Kongo pode ter quatro entradas, cada uma com moradores específicos. Os “Nganga” (mestres iniciados) podem morar perto de uma entrada, enquanto os “Mfumu” (líderes políticos) vivem perto de outra. Isso reflete os diferentes papéis e energias dentro da comunidade.
Até o aprendizado é estruturado em torno das quatro etapas. Os processos educacionais acontecem em quatro níveis, cada um nomeado e alinhado com uma etapa específica do cosmograma, completo com sua cor simbólica.
O conceito bantu-kongo de tempo é uma maneira fascinante de ver como nossas vidas diárias estão conectadas ao quadro maior. É um lembrete de que tudo o que fazemos, desde nossas rotinas diárias até as estruturas comunitárias, contribui para o ritmo da vida.
O Fluxo do Tempo: A Perspectiva Bantu-Kongo
O conceito bantu-kongo de tempo é mais do que minutos, horas e dias. É um rio fluente de experiências marcadas por “barragens” ou eventos.
Imagine uma conversa com uma pessoa Mukongo. Ela poderia dizer: “Tivemos funerais no mês passado”, referindo-se a um período de dias, não de horas. O tempo é medido por eventos – nascimentos, guerras, casamentos, até mesmo atividades cotidianas.
Viver no tempo Kongo significa estar consciente dessas “barragens” e de como elas moldam sua vida. Não se trata de controlar rigidamente o tempo, mas de responder ao seu ritmo.
Aqui está uma análise mais profunda desse conceito:
- Nenhum Tempo Perdido:A ideia de que a África não possui um conceito de tempo é um equívoco. O povo Bantu-Kongo entende a importância do tempo para atividades como pesca, agricultura ou evitar perigos.
- Paciência é Fundamental:“Chegar atrasado” não é necessariamente negativo. Eventos imprevistos podem criar novas “barragens” no fluxo do tempo, exigindo adaptação.
- O Rolo do Tempo:O povo Bantu-Kongo visualiza o tempo como um rolo. O “presente” é a seção do meio, onde podemos aprender com o “passado” (desenrolando o rolo) e usar esse conhecimento para navegar no “futuro” (enrolando o rolo para frente).
- Barragens do Conhecido e do Desconhecido:A vida é sobre lidar com eventos esperados e inesperados. Compreender a interconexão entre passado, presente e futuro nos permite navegar eficazmente no fluxo do tempo.
A Canção do Viajante:O conceito de tempo é belamente capturado em um ditado Kongo: “Ma’kwenda! Ma’kwiza” – o que acontece agora retornará depois. O tempo, como a vida, é cíclico, e tudo o que vivenciamos deixa sua marca no rio sempre fluente do tempo.
O conceito Bantu-Kongo de tempo é uma maneira fascinante de pensar sobre nosso lugar no universo. Ele nos lembra que o tempo não é apenas uma progressão linear, mas um rico tecido entrelaçado pelos eventos e experiências de nossas vidas.
O Rio Duradouro: Reflexões Finais sobre o Tempo Bantu-Kongo
O conceito Bantu-Kongo de tempo pode parecer totalmente novo, até revolucionário. Isso pode ser devido, como alguns estudiosos sugerem, à falta de compreensão das cosmologias africanas.
Para os Bakongo, o tempo não é uma entidade separada, mas entrelaçado em todos os aspectos da vida. Cada evento, grande ou pequeno, é uma “barragem” que molda o fluxo do tempo.
Aqui estão alguns pontos-chave desta exploração do tempo Bantu-Kongo:
- Tempo como uma Jornada Universal:Do ponto de vista cosmológico, o tempo é a grande jornada do universo. Ele se estende desde a formação do primeiro planeta até sua eventual transformação, um processo refletido nos quatro estágios do cosmograma Kongo.
- Tempo como o Ciclo da Vida:Biologicamente, o tempo é a duração da vida de todos os seres vivos. Começa com a primeira concepção e continua até a última. Cada espécie tem seu próprio tempo designado na grande linha do tempo.
- Tempo como o Ritmo da Sociedade:Socialmente, o tempo é o desenrolar dos eventos humanos. Começa com a primeira interação social e continua até a última.
- Tempo como o Sopro da Natureza:De uma perspectiva natural, o tempo é a duração de uma Terra saudável e que sustenta a vida. Ele começa no momento em que a natureza se tornou capaz de suportar a vida e termina quando não pode mais fazê-lo.
Todos nós somos parte deste grande rio do tempo. Os eventos de nossas vidas, grandes e pequenos, são as “barragens” que moldam seu fluxo. Em certo sentido, nós somos o próprio tempo.
O conceito bantu-kongo de tempo oferece uma maneira bela e profunda de pensar sobre nosso lugar no universo. Ele nos lembra que o tempo não é apenas uma progressão linear, mas uma rica tapeçaria tecida a partir dos eventos e experiências de toda a existência.
UMA NOTA SOBRE MPEMBA
A palavra “Mpemba” carrega uma dualidade fascinante. Embora signifique o conceito profundo de tempo conforme experimentado pelos Bakongo, ela também possui outros significados dentro da cultura.
Tradicionalmente, “Mpemba” refere-se a um tipo de giz usado em contextos espirituais e artísticos. Alguns acreditam que a palavra se origina da Ilha Mpemba, um lugar onde muçulmanos introduziram a arte da escrita na região. Essa conexão entre Mpemba, a ilha, e o ato de escrever reflete o fluxo do conhecimento e a troca cultural ao longo do tempo.
A existência desses múltiplos significados para “Mpemba” é um lembrete da interconexão de todas as coisas. Assim como o tempo une passado, presente e futuro, a palavra “Mpemba” faz a ponte entre o espiritual e o artístico, o local e o global. É um testemunho da riqueza e complexidade da visão de mundo bantu-kongo.
Escrever com Mpemba torna-se, então, uma forma de gravar palavras não apenas em uma superfície, mas no próprio tecido do tempo.É uma maneira de se conectar com a sabedoria de nossos ancestrais, aqueles que já caminharam pelo rio do tempo antes de nós, e deixar nossa própria marca para as gerações futuras.
Mais sobre o conceito de tempo em outros artigos deste blog.
